Arrogância ou assertividade? A confusão da mente cristã pós-moderna

19:46

Dias atrás sofri um ataque relativamente inóquo, até bem-intencionado, eu diria. Mais uma vez alguém me acusou de ser arrogante. 

Não foi a primeira nem a segunda vez que recebo esse tipo de acusação e creio que ela pode gerar uma reflexão oportuna e produtiva. Para isso, teremos que recrutar um pouco de conhecimento histórico. 

Vivemos na pós-modernidade. A pós-modernidade é um recorte bastante peculiar. É um período caracterizado por (I) uma forte ação antiintelectual, (II) elevação das emoções e sensações à estatura de fontes de conhecimento, (III) aversão à qualquer reivindicação de absolutos, (III) visão pluralista e relativista, (IV) busca por um discurso unificado em prol do "amor". 

Nos tempos pós-modernos, portanto, alguém que se expressa com a convicção de uma verdade absoluta é visto, no mínimo, como um ponto fora da curva e, via de regra, como uma ameaça a ser sufocada - à força, se necessário. 

Pois bem. Até aqui nada de novo. O que É realmente espantoso e provavelmente "breaking news" para muita gente é o fato de que a potestade pós-modernista infiltrou-se na igreja de modo que o pensamento de muitos, Muitos, MUITOS cristãos é moldado não pelas Escrituras, mas pelos pressupostos da pós-modernidade. 

Uma quantidade alarmante de cristãos hodiernos deixou de fixar as bases de seu pensamento no princípio gerador da cosmovisão cristã e passou, quase inconscientemente, a adotar o repertório de asserções do pós-modernismo. Eles passaram a articular certo relativismo em seu discurso; passaram a valorizar muito mais as emoções do que regras conceituais imutáveis; passaram a comprar a sensação pacificadora do pluralismo a fim de estabelecer um "melhor diálogo" com as diferentes perspectivas; e, fatalmente, foram marionetados pelo espírito antiintelectual de nossa era. 

Com efeito, umas das consequências mais notórias dessa anomalia religiosa-filosófica é o repúdio de muitos crentes à reivindicações seguras e convictas a respeito de qualquer assunto. Eles podem não saber disso, como de fato não sabem, mas, em face da erosão intelectual que sofreram, confundem assertividade com arrogância. E confundem as duas coisas com uma facilidade assustadora. 

Ademais, una à assertividade uma disposição combativa e firme na apologética, disposição que todos os cristãos são chamados a cultivar, e voilà: cria-se um espantalho a ser chamado de "arrogante", "bronco", "mal-humorado" e etc. - não coincidentemente, todos os predicados que esquerdistas atribuem aos verdadeiros conservadores. 

Agora, deixe-me dizer algo aqui. Eu não estou afirmando que sou isento do pecado da arrogância e não estou reivindicando imunidade. Talvez essa realmente seja uma deficiência sobre a qual o Espírito Santo há de trabalhar em mim. Mas o que eu ESTOU dizendo é que os motivos pelos quais sou chamado de arrogante não apontam para essa debilidade de caráter, antes, apontam para uma assertividade de tal modo contundente que as mentes frágeis e infantes desses crentes pós-modernos são constrangidas e machucadas. 

O que ESTOU dizendo é que, nesses tempos em que vivemos, convicção de verdade unida a uma disposição combativa causam nos fracos cristãos um alerta em seus ridículos sensos de piedade. 

O filósofo cristão Vincent Cheung capturou como poucos essa confusão na piedade cristã popular e antibíblica. Em uma de suas obras ele disse: 

"Eu pareço arrogante a você? Essa é uma resposta tipicamente americana, mas não necessariamente cristã. Você ainda não entende, não é? Eu tenho confiança na palavra de Deus, e é porque eu dependo dela que nunca poderei ser derrotado. Porque a sabedoria de Deus é tão vastamente superior à sabedoria do homem, eu irei sempre vencer qualquer debate com uma facilidade quase desestimulante. É essa confiança que eu desejo transmitir a cada cristão".

Você vê? Assertividade e postura beligerante são confundidas, hoje, com arrogância. E, tristemente, assertividade e uma postura beligerante são disposições espirituais desejáveis para o crente, segundo a Bíblia. Isso mostra, então, que o cristão pós-moderno, amigo da antiintelectualidade, é inimigo da verdade e da Escritura. Enquanto ele imagina promover a paz e a harmonia com seus escrúpulos pós-modernos, nega as armas espirituais que Deus forneceu à sua igreja para o crescimento do Reino. 

Que tempos! 

Neste ponto, vale interiorizarmos a exortação de Paulo e nela nos agarrarmos com unhas e dentes: 

"E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus" (Rom 12:2).


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